Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, observa que o crescimento acelerado das vendas online de eletrônicos no Brasil trouxe consigo um volume expressivo de embalagens de difícil reciclagem que raramente recebe atenção proporcional à sua escala. Caixas plásticas moldadas, espumas de proteção, blísteres rígidos e invólucros antiestáticos compõem um conjunto de materiais projetados para proteger smartphones, computadores, fones de ouvido e acessórios durante o transporte, mas que, ao chegar às mãos do consumidor, transformam-se em resíduo quase imediato e de baixíssima reciclabilidade.
Neste artigo, exploramos a dimensão desse problema e os caminhos disponíveis para reduzir seu impacto sobre a gestão de resíduos sólidos urbanos.
A composição das embalagens eletrônicas e os desafios técnicos da reciclagem
As embalagens de produtos eletrônicos são desenvolvidas com requisitos técnicos rigorosos de proteção contra impacto, umidade e descarga eletrostática, o que resulta em uma combinação de materiais que dificulta significativamente sua reciclagem. Espumas de poliestireno expandido, blísteres de PET ou PVC termoformado e sacos antiestáticos com camadas metalizadas são exemplos de soluções de embalagem que cumprem bem sua função protetiva, mas que não possuem rota de reciclagem estabelecida na maioria dos municípios brasileiros.
Conforme analisa Marcello José Abbud, o problema se agrava porque essas embalagens frequentemente combinam diferentes materiais em uma única peça, como caixas de papelão com inserções de espuma moldada ou blísteres com etiquetas adesivas de polímeros incompatíveis com o material base. Essa heterogeneidade torna o processo de separação economicamente inviável para a maioria das usinas de triagem, que classificam esses materiais como rejeitos, mesmo quando descartados corretamente pelo consumidor na coleta seletiva.

O crescimento do e-commerce e a multiplicação das embalagens secundárias
O comércio eletrônico introduziu uma camada adicional de embalagens que não existia no varejo físico tradicional. Além da embalagem original do fabricante, os produtos eletrônicos comprados online frequentemente chegam envoltos em caixas secundárias de transporte, com plástico bolha, enchimento de ar ou papel kraft adicional para garantir a integridade durante o trajeto logístico. Na prática, essa duplicação de embalagens multiplica o volume de resíduos gerados por unidade de produto vendido, em comparação com a compra presencial.
Sendo diretor da Ecodust Ambiental e uma referência em tecnologias para tratamento de resíduos sólidos urbanos, Marcello José Abbud, plataformas de e-commerce e marketplaces têm responsabilidade direta sobre o dimensionamento dessas embalagens secundárias, e o excesso de material de proteção em relação ao tamanho real do produto é uma prática recorrente que infla o volume de resíduos sem ganho proporcional de segurança no transporte.
Dentre esse panorama, algoritmos de otimização de embalagem, já adotados por grandes operadores logísticos internacionais, permitem ajustar o tamanho da caixa e o volume de material de enchimento ao formato específico de cada produto, reduzindo desperdício sem comprometer a integridade da entrega.
Iniciativas de logística reversa específicas para embalagens eletrônicas
Algumas fabricantes de eletrônicos de maior porte já desenvolvem programas piloto de logística reversa específicos para suas embalagens, com pontos de coleta em lojas próprias e parcerias com operadores logísticos para o retorno de materiais de proteção reutilizáveis. Embalagens retornáveis para produtos de maior valor agregado, como notebooks e equipamentos corporativos, já demonstram viabilidade econômica em mercados mais maduros, especialmente quando o fabricante mantém relação contínua de venda e suporte com o cliente corporativo.
Na avaliação de Marcello José Abbud, ampliar esses programas para o mercado de consumo de massa exige investimento em infraestrutura de coleta acessível e comunicação clara sobre os pontos de devolução disponíveis. Nesse cenário, a combinação entre redesenho de embalagens com critérios de reciclabilidade desde o projeto, redução do volume de embalagens secundárias no comércio eletrônico e estruturação de sistemas de retorno é o caminho mais direto para reduzir o passivo ambiental crescente associado ao consumo de produtos eletrônicos no Brasil.

