A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que, para muitas crianças, perder um jogo ou uma disputa vai muito além de ficar sem o prêmio. A derrota pode ser vivida como uma ameaça à própria imagem, como se perder significasse valer menos aos olhos de quem importa. É assim que o choro, a raiva, o abandono da brincadeira e a acusação de que os outros trapacearam costumam aparecer com tanta força. Entender o que a criança sente nesses momentos ajuda os adultos a responder com acolhimento, em vez de reprimir ou rir da reação, e a transformar a frustração em aprendizado.
O que a derrota desperta na criança?
Quando a criança perde, ela não sente apenas decepção. Podem surgir vergonha, medo de ser deixada de lado e a sensação de que não foi boa o bastante. Como ainda está aprendendo a lidar com emoções intensas, ela costuma expressá-las com o corpo, em gritos, choro, empurrões ou fuga. Por isso, aprender a reconhecer e suportar o que sente é um ponto central da saúde mental infantil.
Como nota Taiza Tosatt Eleoterio, essa reação não é sinal de mau caráter nem de falta de educação. É a maneira que a criança encontra de dizer que algo doeu e que ainda não sabe nomear o que sente. Por trás do grito ou da fuga, há uma criança pedindo ajuda para atravessar um sentimento grande demais para ela.
Perder como ameaça à própria imagem
Para a criança pequena, ganhar e perder estão ligados à ideia de quem ela é. Se ganha, sente-se admirada. Se perde, teme ser vista como fraca ou menos querida. Essa leitura aparece com mais força em crianças que sentem muita cobrança, em casa ou na escola, para se destacar. Um ambiente familiar muito exigente pode reforçar essa ideia sem que ninguém perceba.
Nesse caso, o jogo deixa de ser brincadeira e passa a ser uma prova. A criança que não aceita perder muitas vezes está tentando proteger a imagem que acredita ter diante dos outros, e não apenas defender o resultado.
O papel do jogo no aprendizado da frustração
O jogo é um dos primeiros espaços em que a criança pode experimentar perder em um ambiente seguro. Nele, a derrota é temporária, tem regras claras e permite uma nova tentativa. Quando os adultos acolhem o sentimento e mantêm o jogo como jogo, a criança aprende que perder faz parte e que a vida continua depois.
Na leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, o aprendizado da frustração não acontece por meio de lições dadas na hora da raiva. Ele se constrói aos poucos, com experiências repetidas em que a criança perde, sente e percebe que continua sendo querida.
Como os adultos reagem e o que a criança aprende?
A reação dos adultos pesa muito. Quando riem da raiva, comparam a criança com outras ou dizem que ela precisa ser mais forte, a mensagem que fica é a de que o sentimento é errado. Por outro lado, quando deixam sempre a criança ganhar para evitar o choro, ela perde a chance de aprender a lidar com o desconforto.
O caminho do meio, aponta Taiza Tosatt Eleoterio, é reconhecer o que a criança sente sem ceder a tudo. Ao dizer que entende a tristeza, manter a regra do jogo e oferecer um colo depois mostra que a emoção é aceita e que o limite continua.
Pequenas atitudes que ajudam a lidar com a derrota
Algumas atitudes simples costumam ajudar no dia a dia. Nomear o sentimento, dizendo, por exemplo, que a criança ficou triste ou com raiva por ter perdido, já mostra que a emoção é aceita. Jogar junto e deixar que a criança veja como o adulto lida com a própria derrota, sem dramatizar, também ensina. Elogiar o esforço e a persistência, e não só o resultado, ajuda a tirar o peso do placar. Por fim, combinar as regras antes de começar, lembrando que o jogo termina e a convivência continua, dá segurança para a brincadeira.
Taiza Tosatt Eleoterio detalha que essas atitudes funcionam melhor quando são repetidas com calma e sem cobrança. A criança aprende por imitação e por experiência, e cada jogo vira uma oportunidade de treino.
Perder também ensina
Assim, perder deixa de ser apenas uma experiência dolorosa e passa a ser uma oportunidade de crescimento. A criança que aprende a atravessar a frustração ganha segurança, melhora a convivência com os colegas e se sente mais capaz de tentar de novo.
Como ressalta Taiza Tosatt Eleoterio, os adultos não precisam evitar toda derrota nem exigir que a criança reaja sem emoção. Basta acompanhar com paciência, deixar claro que o afeto não depende do resultado e permitir que, aos poucos, a criança descubra que perder não diminui quem ela é.

